Conto e Crônica

[Conto] Um garoto, taiko e Bon Odori


    As férias de verão já estavam na metade. Uma batida na porta do meu quarto interrompeu o meu pensamento. Já estava quase decidindo como ia consumir o resto do dia. Meu pai abriu uma brecha na porta o suficiente para poder falar.

– Sabe Tanaka san do Chounaikai? Ele comentou comigo que precisava de alguém para tocar taiko e me pediu para te perguntar se tem interesse. E aí?”

O que, taiko? Tocar taiko só se for no taiko no tatsujin. Já não gosto de aparecer, imagine usando hachimaki de sushiman e ser o centro de atenção num festival de gente velha. Tradicional é o eufemismo que encontraram para cheiro de naftalina. Sabia que meus pais estavam participando das atividades do bairro por sermos recém chegado. Será que é tão importante puxar o saco dessa gente? Além disso, minha preguiça não permitia tal coisa, ainda mais para algo imokusai. Que coisa de gente do interior. Essa gente não conhece netflix

– Então pai, adoraria mas acho que não vou poder porque ainda nem terminei o shukudai da escola – Mentira. Já tinha terminado nos primeiros dias.

– OK, que pena. Acho que tu iria gostar, sabe? Quando tava no shougakkou participei também. É algo que não pode faltar no verão. Mas sem problema, vou responder para ele hoje a tarde.

Nesse dia decidi ir ao parque a quatro quarteirões de casa. Preferi trocar o conforto do ar-condicionado da casa pela calmaria do parque. Pelo menos aqui minha mãe não fica enchendo o meu saco para arrumar o quarto.

As cigarras cantavam com toda a força como se soubessem das suas vidas curtas de verão. Havia meia hora que tinha encontrado um banco com a combinação perfeita com a sombra da árvore. Infelizmente o era para essas cigarras também.

Don do ko don, ka ta ta tta.

Ecoava o som do wadaiko pelo parque. Vejo o Kato san ao lado de uma criança, provavelmente ensinando a tocar o básico. Ele aparentava ser um pouco mais novo que eu, talvez da segunda ou terceira série. Ele estava com dois pedaços de madeira nas mãos batendo num tambor quase do tamanho dele. Checando se eu estava bem escondido na sombra, continuei acompanhando de lado.

Passaram horas. O sol já estava se pondo e o garoto ainda não conseguia pegar o ritmo. Era umas três músicas com batidas simples. Era claro que se depender desse garoto o bon odori seria um desastre no matsuri. Coitado, podia estar em casa jogando vídeo game e tomando picolé em vez de estar sofrendo essa pressão. Começou a tocar a música para avisar dezessete horas no parque e aproveitei voltar para casa.

Nos outros dias seguintes continuei frequentando o parque em busca de alguma novidade nessa cidade nova. Todas as vezes via o menino treinando. Continuava… bem, um desastre.

Uma vez fui tomar água na torneira do parque e quando tinha terminado, ele tava atrás aguardando a sua vez. Sem saber o que falar, acenei levemente com a cabeça. Antes de ir, acabei soltando uma pergunta.

– Tu gosta de tocar taiko? – comecei com uma pergunta simples. Vi que ele não esperava por essa pergunta.

– Hmm. Acho que sim. To começando agora, ainda sou meio ruim – Ele falou um pouco sem graça mostrando as ataduras. Parecia até um personagem de street fighter.

– Caramba! Por que está fazendo? Poderia brincar no taiko no tasujin se gosta tanto assim. – Eu sei, não me contive.

– Quando era mais novo eu vi meus irmãos mais velhos participando. Acho que é normal por aqui, sabe? Não sei se vou conseguir tocar bem mas é bacana saber que vou poder tocar no bon odori – Assim, ele voltou a treinar.

A cada fita de atadura que aumentava no dedo e na mão, ele parecia estar ficando melhor. Fiquei surpreso em um garoto da minha idade falar uma coisa dessa. Nunca tinha pensado dessa forma e para ser sincero ainda não entendia direito. Para que tudo isso?

    Chegou o dia do festival. Minha irmã mais nova estava tão animada em finalmente poder usar o yukata que ganhou dos avós. Contei três berros da minha mãe enquanto ela tentava amarrar o pano do yukata que serve como cinto.

– Prontos, vamos lá?

Nunca tinha ido antes, mas tinha noção pelo que passava na TV e nos animes. Tem uma provérbio que diz:

百聞ひゃくぶん一見いっけんかず】: Uma olhada é melhor que escutar cem vezes.

Nossos ancestrais são sábios por deixar um provérbio desse. Não encontraria frase melhor para descrever. Fiquei boquiaberto.

O local era o mesmo parque que costumava ir. Mas, aquele lugar com o contraste da noite e toda aquela iluminação parecia um lugar totalmente diferente. Como se o parque também tivesse se aprontado para o festival e se decorado de chouchin e yatai, como as pessoas vestiam yukata Parecia que eu fui levado para um outro mundo como a Chihiro do filme sen to chihiro no kami kakushi. Toda aquela iluminação e cores criavam um mosaico que não sabia como descrever.

– Não é bonito, Kanata? – Comentava o meu pai olhando para mim. Concordei em silêncio.

Daí foi só indo de barraquinha a barraquinha. Tinha yakissoba, takoyaki, algodão doce… Crianças correndo com máscara dos personagens de anime. Adultos brincando de pesca de peixe-dourado. Um rapaz tentando derrubar uma pelúcia para impressionar a namorada.

Era a terceira vez na fila do kakigouri quando finalmente ouvi o anúncio.

– Pessoal, vamos começar o bon odori daqui a cinco minutos. Juntem-se no meio!

Pouco a pouco foi criando uma roda ao redor da yagura, a torre central. Meu pai liderou e puxou a gente e agora fazíamos parte daquela ciranda. Ele comentou para mim que tinha ajudado a construir aquela estrutura. Fiquei orgulhoso dele.

Dai começo a escutar aquele som que tinha me acostumado a ouvir.

Don do ko don, ka ta ta tta.

Pouco a pouco essa roda de gente começou a girar. Os mais velhos faziam os gestos e passos da dança. Os mais novos seguiam imitando. As palmas entravam em sintonia com o som do taiko e criava um atmosfera único. Lá, não era estranho sorrir para um desconhecido.

– Yamada san, to gostando de ver! Depois passa lá na barraca da organização para levar umas cervejas – Um velhinho falando pro meu pai.

Arigatou! Vou passar lá depois – Respondia meu pai usando a mão para criar a forma de megafone como apoio.

Percebi porque meu pai fazia questão de ajudar no trabalho da comunidade. Porque aquele garoto fazia questão de passar horas treinando e criando ataduras na mão. Esse atmosfera era único. Eu, minha família, todas aquelas pessoas pareciam ser de uma grande família. Cada chouchin pendurado, cada barraca montada, era alguém fazendo parte da comunidade. Assim como esse som que guiava toda a dança. Não era por acaso, era feito de boas intenções e compartilhamento.

A noite foi encerrada com um hanabi. Tinha visto fogo de artifício maior mas era o mais bonito que tinha visto. Comendo kakigouri, minha irmã comentou que já está ansiosa para o do próximo ano.

Estávamos voltando para casa e minha mãe perguntou se eu tava com dor de barriga depois de comer tanta coisa e eu falei que não.

Meu pai chegou no meu lado e fez uma pergunta.

– Kanata, o Tanaka san está criando um grupo de taiko juntando as crianças da vizinhança. O que tu acha de eu sugerir teu nome?

– Bom, já terminei as atividades da escola então acho que tenho tempo…

Dessa vez fui sincero.

 

Vocabulários

 

漢字・ひらがな Romaji Tradução

宿題(しゅくだい)

Shukudai

Dever de casa. Atividade de casa.

小学校(しょうがっこう)

Shougakkou

Escola primária. De primeira a sexta série.

いも臭い(いもくさい)          

imokusai

Uma gíria para referir “coisa de gente de interior”.

町内会(ちょうないかい)

chounaikai

Associação do bairro. Uma organização composta por voluntários da cidade para as atividades tradicionais e diversos para a própria comunidade.

鉢巻(はちまき)

hachimaki

Lenço que amarra na cabeça. Comumente usado em atividades tradicionais do Japão.

和太鼓(わだいこ)

wadaiko

Tambor japonês. Comumente conhecido como Taiko

盆踊り(ぼんおどり)

bon-odori

Dança de tradição japonesa, normalmente realizada no matsuri. Cada região do Japão tem a sua própria.

祭り(まつり)

matsuri

Festival tradicional do Japão, usualmente realizada no verão. É um dos maiores evento orgulhosamente realizada pelos japoneses e descendentes em vários países, incluindo o Brasil.

浴衣(ゆかた)

yukata

Vestimenta japonesa como Kimono, mais simples e leve.

提灯(ちょうちん)

chouchin

Tipo de lanterna feita de papel tradicional do Japão.

屋台(やたい)

yatai

Barraca de comida ou de brincadeiras. Normalmente encontrada em nas ruas ou em festas de rua.

かき氷(かきごおり)

kaki-gouri

Doce japonês com gelo raspado e caldo diluído. Raspa-raspa.

櫓(やぐら)

yagura 

Torre principal do Matsuri com o objeto de decoração e tocar taiko no meio. Construção simples feita por madeira ou andaime.

花火(はなび)

hanabi

Fogo de artificio.

 

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Nipobrasileiro arretado de Recife. Fundador do Kotobá – Japonês Simples! Acredita que a mudança vem pelo empoderamento das pessoas. Gosta de café, livros e passear de skate.