Fale como um japonês nativo

Guia do Kanji para iniciantes e por que você deve começar a amá-lo


Kanji – também conhecido como “o aterrorizador” no meio dos estudantes de japonês – todos já devem ter visto nessa era da internet. Talvez você discorde comigo, mas particularmente sempre gostei deles. Na medida em que eu estudava e aprimorava meu conhecimento sobre o japonês eu ficava feliz de ver minhas frases cada vez mais bonitas e complexas com aqueles kanjis. Até então, como muitos de vocês, eu os achava extremamente complicados de escrever e nos corredores da escola ecoavam os gritos: “Kanjis são muito difíceis! Aaaargh! Não consigo estudar! Aaaargh!”.

Mas, para que eles existem então? Os kanjis são tão ruins assim? Fui atrás das suas origens.

História do Kanji【漢字】

Os kanjis começaram a chegar ao Japão no séc. I por meio de cartas diplomáticas, textos do imperador da China e da Coreia, e escritos budistas. Por muito tempo eles foram lidos no idioma original pelos japoneses, pois ainda não existia uma língua formal no Império Japonês. No entanto com o tempo, durante o período Heian 【平安時代】, os japoneses fizeram o que sabem fazer de melhor! Pegaram o que é dos outros (dando crédito aos chineses, claro) e fizeram sua versão japonesada.

No começo era algo bem rudimentar. Eles criaram um sistema chamado de Kanbun 【漢文】que consistia em marcas e anotações nos kanjis para que os japoneses pudessem ler os textos chineses no então dialeto nativo.

Ao mesmo tempo em que o sistema Kanbun estava sendo desenvolvido, outro sistema estava crescendo e se tornando popular. Conhecido como man’yōgana 【万葉仮名】, o sistema usava o som de alguns ideogramas chineses para facilitar a comunicação e a expressão. Parece familiar? Esse sistema na era moderna é conhecido como “Kana”, o hiragana e o katakana! O hiragana foi desenvolvido para mulheres, pois na época elas não recebiam educação formal e o katakana surge por meio dos estudos dos monastérios na tentativa de simplificar o man’yōgana.

evolução

Mas calma, meu caro estudante de japonês! Não pense que a origem é igual à atualidade. O idioma evoluiu muito com o tempo, principalmente na era moderna depois da segunda guerra mundial. Se pudessem voltar no tempo e conversar com um japonês daquela época… na verdade, não conversaríamos com palavras porque ninguém ia entender nada. 200 anos atrás já é suficientemente diferente para que os atuais faladores de japonês não entendam nada. Interessante, ne?

Sabia dessa? As linhas internas representam as crateras da lua!

Entendendo melhor.

Agora que você já conhece um pouco da historia, você está pronto para conhecer melhor o poder do kanji! Podemos dizer que existem vários tipos de kanjis ou podemos partir do ponto que existem vários tipos de origens e dessa forma podemos classifica-los em grupos.

  1. Shōkei moji 【象形文字】: kanjis pictográficos; através dos ideogramas imitam os objetos que eles representam , por exemplo o kanji 【木】 que replica a imagem de uma  arvore. Temos que levar em consideração que os kanjis evoluíram com o tempo e talvez os kanjis pictográficos não sejam tão semelhantes às suas origens.
    • 火 – Hi representa o fogo.
    • 月 – Tsuki representa a lua.
    • 川 – Kawa representa o rio.
  2. Shiji moji 【指事文字】: kanjis ideográficos; são graficamente simples e representam ideias abstratas como 上 “acima” ou  下 “abaixo”
    • 一 Um traço representa o numero “um”.
    • 二 Dois traços representam o numero “dois”.
    • 三 Três traços representam o numero “três”.
  3. Kaii moji 【会意文字】: kanjis conhecidos como compostos ideográficos. Eles juntam dois radicais para formarem uma ideia mais complexa, um novo conceito. Por exemplo: o kanji da palavra Kokuji 【峠】 (passagem da montanha) é formado pela combinação de 3 radicais, os kanjis de 山 (montanha), 上 (cima) e 下 (baixo).
    • 明 – Claridade. Formado pela combinação dos radicais 日(sol) e 月(lua)
    • 林 – Bosque. Composto de dois radicais 木(árvore).
    • 男 Homem. Representado como os radicais de força (力) e campos de arroz (田)
  4. Kasha moji 【仮借文字】: kanjis conhecidos carinhosamente como “empréstimos fonéticos”. Este grupo é conhecido como os kanjis que foram interligados entre o chinês e o japonês através do som e não da imagem. Ex: O kanji 来 (ir) na china antiga tinha o significado de trigo, porem a fonética se assemelhava ao verbo “ir” pronunciado pelos japoneses da época.
  5. Keisei moji 【形声文字】: kanjis conhecidos como fono-semântico. Compostos normalmente por dois radicais, um indica a ideia, o conceito da palavra, e o outro radical a pronuncia. 90% dos kanjis estudados na atualidade são fono-semânticos, então esse aqui você tem que tirar de letra rapaz.
    • 銅 – Cobre. O radical 金 (metal) atribui o sentido, a ideia, enquanto 同 (igual) fornece a pronúncia on-yomi “dou”.
    • 聞 – Ouvir, perguntar. O radical “orelha” (耳) dá o sentido, e “portão” (門) a pronúncia on-yomi “mon”

Ok, até agora to acompanhando, mas o que é pronúncia on-yomi?

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食戟のソーマ! E ai, consegue ler esse kanji?

Leituras: On’yomi 【音読み】 & Kun’yomi 【訓読み】

Talvez seja aqui onde a maioria das pessoas passa a não gostar dos kanjis. Diferentemente do nosso bom e velho português, os japoneses ao usar os kanjis, não escrevem o que falam. Ex: os brasileiros na hora de escrever a palavra “corpo” escrevem exatamente o som pela qual a palavra é pronunciada, no entanto no Japão, a ideia da palavra é representada através do ideograma.

O que isso quer dizer afinal de contas? Vamos fazer um teste.

Você consegue ler esta palavra aqui: consociação?  Embora você possa ou não saber o significado dela, você consegue ler, pois a pronuncia e a escrita são idênticas.

Agora vamos para o japonês. Você consegue ler esta palavra: 【木漏れ日】?  Ficou difícil?
Se a pessoa não souber ler estes kanjis, simplesmente não será possível saber a pronuncia desta palavra. No caso de estudantes iniciantes, sem ter estudado a palavra antes, será praticamente impossível conseguir ler os kanjis desconhecidos.

Nessa altura do campeonato deve ter gente pensando já no “hiragana” e o “katakana”. Sim, eles são escritos de acordo com a pronuncia, mas nenhum texto na língua japonesa será feito apenas de hiraganas e katakanas como no nosso idioma. Querer saber ler japonês, significa ter que saber ler kanji. Então vamos lá!

  • On’yomi 【音読み】 é a leitura proveniente da China. Conhecida também como sino-japonesa. É a leitura atribuída aos kanjis que se assemelham ou descendem da leitura original do ideograma. Existem palavras que tem mais de uma leitura on’yomi, pois o mesmo kanji foi introduzido com ideias diferentes em épocas diferentes no Japão. Normalmente espera-se que kanjis que foram inventados pelos japoneses não tenham leituras on’yomi, mas como toda boa regra no japonês existe a exceção.  Ex: o ideograma japonês referente a trabalhar é 働. A leitura kun’yomi é “hataraku” e a on’yomi é “dõ”.
  • Kun’yomi 【訓読み】 é a leitura nativa do kanji. Baseiam-se na pronuncia original das palavras japonesas que se assemelhavam ao significado original dos caracteres chineses. Existem palavras que não possuem esta leitura, mas como falei, sempre tem a exceção. Ex: a palavra leste 【東】 tem o on’yomi “tõ”, mas como já existiam duas palavras para leste no antigo japonês (higashi e azuma) elas foram acrescentadas como kun’yomi.

Saber quando ler e qual leitura usar é bem complicado, pois até mesmo para os japoneses nativos é difícil saber. Claro que existem as leituras comuns do cotidiano que são constantes no dia a dia ou as simples e fáceis que aprendemos desde o iniciante, mas vou deixar algumas dicas que podem te ajudar:

On’yomi:

  • Leitura que descende do Chinês.
  • Normalmente usado quando não há hiragana acoplado à palavra.
  • Comunmente usado em palavras compostas com mais de um kanji. Ex: 空港 (kuukou)

Kun’yomi:

  • Leitura nativa.
  • Normalmente acompanhada de hiragana. Ex: 食べます (comer) ou  赤い (vermelho)
  • Não é costumeiro encontrar kun’yomi em palavras com múltiplos kanjis.

Seja kun’yomi ou on’yomi, minha dica é: estudar!

Esse cara ai do lado de fora… ta fazendo o que mesmo? hahaha

Como estudar kanji

No Japão existe um histórico de estudo por meio de repetição e memorização. Não vejo problema em estudar continuamente por meio de repetição os kanjis, mas percebo que não é fácil decorar tantos e tantos kanjis no final das contas, sendo desgastante, fazendo com que a maioria dos alunos desista de estudar. Então por que não conhecer um pouco a estória por trás do kanji que você está aprendendo? Saber qual é o objeto que o ideograma pictográfico está representando ou a ideia que o kanji ideográfico está transcrevendo pode ser uma boa ajuda na hora de decorar os significados.

Conhecer os radicais pode ser uma grande sacada. Principalmente se você já está no nível intermediário para cima, quando se começa a aparecer kanjis deste tipo. Afinal de contas existem kanjis compostos que podem trazer a ideia de um, a leitura do outro ou até um pouquinho de cada. Logo, conhecer os kanjis pode facilitar o aprendizado de novos e mais complexos ideogramas.

Por ultimo, use-os! Não adianta nada tentar ficar decorando kanji por kanji se você não os aplica em orações e sentenças. Então quando for estudar 10 novos kanjis, em vez de tentar escrever repetidamente como nosso amigo Bart Simpsons, faça frases que você normalmente usaria em alguma conversa. Misture mais de um em uma oração, faça um conto, um texto ou um diário.

Não deixe de aplicar porque ele vai se perder. Sabe aonde? Na sua memória. Ela não vai dar conta de todos os kanjis se você não usar eles.

Não tente repetir várias vezes. Em vez disso, escreva frases.

Extra: A bela poesia por traz dos Kanjis.

Como falei pra vocês, os kanjis não carregam apenas uma palavra, mas uma ideia e muitas vezes sentimentos. As poesias japonesas acompanham ideogramas com belas ideias e sentimentos, que muitas vezes podem indicar significados que não existem necessariamente na gramática, mas que existem na ideia.

Gosto do exemplo da palavra karate【空手】. Não tem nada a ver com poesia, mas sim com o poético. Muitos de vocês já devem ter ouvido falar que karate quer dizer “mãos vazias”. Mas a palavra é formada por dois ideogramas: o 【空】 que quer dizer céu ou vazio e o 【手】 que quer dizer mão, mas juntos eles não formam “mãos do céu” e sim “mãos vazias” já que os praticantes de karate não empunham armas e ao lutar estão sempre de mãos vazias.

Outra palavra que gosto muito no japonês e que tem um significado bem poético, é aquela que eu pedi para vocês lerem lá atrás. A leitura e o significado são:

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Eita japonês bonito!

Fico apaixonado por essas poesias por trás de cada kanji, palavras formadas por elas e por ai vai.

Tem um livro chamado Kanji no Kanji【感じの漢字】em japonês que fala muito dessas origens ai. Se tiver uma chance de folhear, vai se apaixonar também 🙂

E ai, o que você achou deste pequeno manual de introdução aos kanjis? Conta nos comentários como é que você está estudando em casa ou na escola pra a gente dividir e conversar sobre novas ideias de estudos e curiosidades a serem compartilhadas.

E o teu kanji favorito qual é?

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  • Philippe

    Tens de estudar a língua portuguesa também, jovem.
    O título “Guia do Kanji para iniciantes e porque você deve começar a ama-lo”, ficaria melhor assim: “Guia de kanji para iniciantes e por que você deveria começar a amá-lo”. Ainda assim continua ambíguo, pois não dá para saber se deveríamos começar a amar o guia de kanji ou o kanji propriamente dito.

  • Valeu pelo feedback, Philippe 🙂 Já estamos revisando. Enquanto isso, se tiver algum comentário em relação ao texto em si, seria muito bacana. Japonês é a especialidade da casa! Fico a disposição 😉

  • Philippe

    Como eu havia dito, o conteúdo vale a pena. Me desculpe se fui chato, não sou “gramaticalmente chato” apenas aqui como também em quase todos os sites que visito e quando encontro erros e posso editar (ou pelo menos avisar/comentar), edito.

  • Que isso, agradeço por apontar 🙂

  • Mário Cruz Júnior .

    Gostei. Introdução muito válida, até mesmo para esclarecer as diferenças nas pronúncias em diferentes palavras usando o mesmo kanji. Saber se vai ser on’yomi ou kun’yomi me parece ser complicado, mas com persistência vai que rola né. Estou em fase iniciante de estudos, mesmo já sabendo o hiragana, katakana e alguns vocabulários. Agora quero aprender a fazer sentenças, usar a gramatica e claro, fazer uso dos kanjis. Parabéns pela iniciativa.

  • Fala Mário, tudo bem? Arigatou pelo comentário cara! É isso ai, praticando com disciplina é o melhor caminho. Qualquer dúvidas ou sugestão de conteúdo, Mário, é só falar para a gente. Na torcida!